
O Globo
Na propaganda
viral, o consumidor é a mídia
12/06/2005
Maria Fernanda Delmas

Experimente lançar
entre amigos a seguinte pergunta: "Vou a Fernando de Noronha nas
férias. Alguém aí tem alguma dica?". Pode
escrever: todo mundo que já viajou para lá vai querer
sugerir um hotel, um restaurante ou um programa. Não que Fernando
de Noronha inteira pague a seus visitantes para fazer propaganda na
volta. É que as pessoas gostam de sugerir espontaneamente algo
que os outros aceitem, testem, aprovem - e passem adiante.
A propaganda já
descobriu faz tempo a força do boca-a-boca. Mas a internet -
com suas comunidades tipo Orkut, seus blogs e o próprio e-mail
- potencializou esse efeito e permitiu o estouro do que o mercado vem
chamando de propaganda viral. Um internauta gosta do que viu ou recebeu
e envia para sua lista de contatos. E a corrente se propaga até
virar febre.
Estratégia
pode se confundir com ação espontânea
Aos desavisados
da rede: por trás disso há uma estratégia de marketing
para fazer com que o consumidor se encarregue de disseminar um produto,
marca ou modismo. E muitas vezes a intenção não
é explícita.
- A beleza do marketing
viral é não desvendar, não saber se é estratégia
ou se é uma corrente espontânea - diz Cecília Novaes,
diretora de planejamento da DPZ, que fez recentemente uma ação
em que o grupo formador de opinião nem sabia que era alvo.
Talvez você
já tenha sido "vítima". No início deste
ano, a empresa Espalhe montou para o canal de TV a cabo Fox uma gincana
em São Paulo para a estréia da nova temporada da série
"24 Horas", em que o herói Jack Bauer tem de salvar
o país de uma mega-ameaça terrorista. O aviso da gincana
foi lançado em comunidades virtuais de fãs, que passavam
a história adiante. Resultado: 1.400 inscritos, muitos fora de
São Paulo.
Há 13 dias,
a DM9DDB colou literalmente com Super Bonder um terminal de computador
de 11 quilos numa parede, ligou uma câmera em frente e lançou
a imagem num endereço na rede. Quem descobre o site pode enviar
uma mensagem, ver o que escreveu pipocar no monitor grudado e saber
há quantos dias a cola já resiste. Nos dez primeiros dias,
foram 50 mil acessos. Chegou mensagem até da Austrália
e do Japão.
Quando um vírus
publicitário é lançado, a mensagem sai do controle
do anunciante.
- A gente vê
que deu certo quando o e-mail roda e volta para a gente - diverte-se
Sergio Mugnaini, diretor de criação de internet da AlmapBBDO.
Uma das dificuldades
é medir os resultados
Um dos grandes problemas
desse tipo de propaganda é a precariedade da aferição
de resultados, diz o presidente da Associação Brasileira
de Propaganda (ABP), Armando Strozemberg, sócio da agência
Contemporânea. Já a propaganda de TV se baseia em audiência
e a de jornal, na tiragem. Na opinião do diretor nacional de
criação da Giovanni,FCB, Adilson Xavier, a propaganda
viral sozinha tem pouca força.
As estratégias
de marketing já seduziram grandes anunciantes mundiais, como
Burger King e Microsoft. E não necessariamente o que é
produzido para a mídia digital é mais barato, ressalta
Rui Branquinho, diretor de criação da W/Brasil. No dia
23, a propaganda viral será tema de um painel no 52 Festival
Internacional de Publicidade de Cannes, que começa semana que
vem no balneário francês.
No Brasil, já
há empresas especialmente voltadas para essa nova onda da propaganda.
A Espalhe, que criou o trabalho para a Fox, nasceu em 2003 para fazer
marketing de guerrilha - ou seja, aquilo que gera mídia espontânea
e tem como uma das ferramentas a propaganda viral, ensinam os sócios
Gustavo Fortes e Marcelo Vial. O anunciante Fox já destina de
30% a 40% de sua verba de mídia para ações de guerrilha.
E a Blackbox, que se intitula especializada em disseminação
- usa não só a internet - já fez 15 projetos no
país e tem oito em andamento no exterior.
Cuidado com a
ética e o 'spam'
Numa propaganda tradicional, a relação é clara:
compra quem quer, após ver o que foi explicitamente apresentado.
E mesmo assim se discute muito a ética. Na propaganda viral,
então, o debate não poderia faltar. Para o diretor nacional
de criação da Giovanni,FCB, Adilson Xavier, não
se deve esconder que uma ação viral é propaganda.
E o presidente da DM9DDB, Sergio Valente, ressalta que marketing viral
mal utilizado vira o detestável spam .
O diretor do curso
de comunicação da Escola Superior de Propaganda e Marketing
(ESPM) no Rio, Carlos Alberto Messeder, acredita que as pessoas percebem
que são a mídia, mas gostam de ser autoras:
- O consumidor acha
um barato participar.
Para o diretor-geral
da Fischer América, João Fernando Vassão, o anunciante
tem de ter cuidado para não ser invasivo.
- Mas antiético
é fazer propaganda viral do que não é ético
- defende a diretora de planejamento da DPZ, Cecília Novaes.
(MFD)
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